Perdidos no Mar de Minas Gerais

Dois amigos e uma viagem de fim de semana. Recebi uma ligação sábado por volta das 9h e ouvi “vê um lugar aí pra gente ir conhecer, pegamos a estrada na hora do almoço, dormimos fora e voltamos no domingo de noite”. Como já moramos no litoral, procuramos um destino nas montanhas, e como eu acho minas gerais “bão dimais da conta”, procuramos algo por lá. Eu estava procurando um destino pelas cidades históricas, mas ele encontrou uma cidade chamada Carrancas, com varias cachoeiras e um clima bem interior, lugar bonito mesmo, o problema foi que não encontramos pousada por lá. Olhando no mapa, reparei que pertinho de Carrancas tinha São Thomé das Letras, pesquisei na internet e encontrei algumas atrações turísticas naturais bem legais pela área. Falei com ele e combinamos de nos encontrar para pegar as motos e sair 13h.

O problema é que alguns imprevistos nos atrasaram e acabamos saindo do Rio somente por volta de 17h. Era horário de verão, tínhamos sol até umas 19h e pouco. Como do Rio para São Thomé das Letras são somente 350km, calculamos uma média de 110km/h, chegaríamos lá não muito depois de 20h. Para nós, dirigir a noite não é problema, isso só é ruim quando estamos com clientes. Como éramos só nós dois, e gostamos de nos aventurar, procuramos um roteiro alternativo, fugindo das rodovias e pilotando em estradinhas que cortam os municípios.

Demos uma rápida olhada no mapa antes de sair e colocamos gps em nossas motos. Saímos da Barra da Tijuca e pegamos a Dutra até perto da cidade de Resende, famosa parada de carros que fazem o trecho Rio-SP. De lá pegamos uma estradinha que subiria da Dutra para a BR-267, já em Minas Gerais, que nos levaria até São Thomé das Letras.

Lembro-me de o gps ficar meio perdido em Resende-RJ, então paramos para pedir informação.

“Passa a ponte que atravessa o rio e vai reto a vida toda.”

Parecia fácil, então seguimos. Me recordo de cruzarmos essa ponte sobre o rio bem na hora do pôr do sol, o céu laranja e o sol refletindo na água. Ate tirei o celular do bolso e tirei uma foto com uma mão, enquanto segurava o guidão da moto acelerando com a outra. A foto, como sempre, não registrou nem uma fração da beleza do cenário naquele momento, mas pelo menos tenho um registro, a beleza toda está bem guardada na minha memória.

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Continuamos pilotando “reto a vida toda”, os últimos minutos de céu laranja nos levaram por uma estradinha pequena e com muitas curvas, o paraíso pra quem anda de moto. Anoiteceu e uma lua enorme, a maior que já vi na vida, tomou o lugar do sol e roubou nossa atenção. Paramos e tentamos tirar uma foto, mas todo mundo que já tentou tirar foto da lua sabe que é uma decepção, a lua fica parecendo um poste com uma lâmpada.

Enfim, já tínhamos rodado pouco mais de 100km, na nossa cabeça estava tudo indo bem. Eu, como velho de guerra das estradas, ia puxando na frente, e ele vinha me seguindo. Tudo lindo, até que passamos por um mata-burro, bem coisa de interior, e de repente o asfalto acabou, dando lugar a uma rua de chão batido.

Parei e pensei: “será que eu errei o caminho?!”

Pilotamos por mais uns 50 metros no máximo e acabou a rua. Nos deparamos com uma grande placa um pouco escondida no meio do mato, já um pouco apagada pelo tempo e bem enferrujada. Era o fim da linha. Tudo escuro, iluminamos a placa com o farol das motos e vimos setas apontando para a esquerda ou para a direita e nomes de cidades que nunca ouvimos falar. Provavelmente eram vilas que tinham no caminho para a BR-267. Tentamos fuçar no gps das motos mas estávamos sem sinal. Meu celular, sem sinal também… Ainda bem que o celular do meu amigo tinha sinal. Tiramos os capacetes, desligamos as motos e começamos a bisbilhotar no mapa do celular tentando entender onde estávamos. Depois de uns 5 minutos, consegui me localizar e nos preparamos para seguir. Por sorte, na mesma hora passou um carro, aproveitamos para pedir informação:

“A BR pra minas gerais é por aqui??” .. “É sim!” .. “Mas não é estrada de terra até lá, né?” .. “Que naaada, é só esse trechinho aqui que tá em obras, ali na frente já vira asfalto de novo”

Ok, tudo bem! Estrada de terra não é novidade pra gente, e se logo ali na frente seria asfalto, estávamos tranquilos.

Veste a jaqueta. Veste a luva. Coloca o ipod no ouvido. Coloca o capacete. Calma aí… Cadê o fecho do capacete? Meu capacete já estava velhinho e toda hora o fecho soltava e caía. No meio do nada, tudo escuro, pra encontrar o fecho do tamanho da palma da mão ia ser difícil, mas ok vamos tentar né… Acende a lanterna do celular, procura aqui, procura ali, jaqueta pesada e luva nas mãos, começou a bater aquele calor… Resolvi largar o fecho e ir embora. Subimos na moto, ligamos o motor e o farol acendeu, andei um pouquinho pra frente e ouvi uma buzina, era meu amigo apontando para o chão e mostrando o fecho, tinha caído embaixo da moto, por isso não achamos.

Agora, com o fecho do capacete e equipados, fomos em frente. Algumas pedras soltas e muita poeira depois, chegamos a uma bifurcação. Para a esquerda subia, para a direita descia. Nessa hora tinha um carro antigo, típico de interior, subindo da direita e seguindo para a esquerda. Não sei a razão, mas eu concluí que ele estava indo para a mesma estrada que nós, então nem parei, segui pelo caminho da esquerda também. Aceleramos as motos, ultrapassamos o carro e seguimos estrada acima… Pilotamos.. pilotamos.. pilotamos.. e nada da estrada aparecer. O gps, mais perdido que a gente, indicava que estávamos andando no meio do nada, em uma montanha.

Rodamos 20, 40, 60km e não chegávamos a lugar nenhum, estávamos completamente perdidos no meio do nada, em uma estrada de terra e com a lua cheia clareando o nosso caminho.

Me lembro de pilotarmos por um lugar que parecia o topo de uma montanha, quando eu ficava em pé na moto e olhava por cima das plantas na beira da estrada, conseguia ver lá embaixo um vale enorme, as plantas das árvores prateadas refletiam o brilho da lua cheia, muito lindo. Eram alguns minutos de menor tensão, quando eu esquecia que estava perdido e ficava admirando a natureza.

Enfim, rodamos mais sei lá quantos km, eu já começava a pensar se teria combustível para chegar a algum lugar ou se ia parar no meio do nada e chorar. Até que chegamos em um vilarejo com meia dúzia de casas, uma igreja e um barzinho com 4 ou 5 cabeças na porta, todos tomando pinga. Foi só perguntarmos como chegar na BR-267 que começou uma baita falação. Enquanto uns diziam que tínhamos que seguir, outros nos diziam que teríamos que voltar (e eu pensando: “voltar?! Nããão”).

Sem gps, sem sinal de celular e sem informação certa. É, estávamos lascados… Por sorte, o mapa no celular já tinha carregado anteriormente, então, mesmo sem sinal, conseguíamos navegar por ele e fuçar as cidadezinhas e estradinhas pela região, mesmo sem ter a nossa exata localização. Fala.. fala.. fala.. Consegui ajudar os caras (já com muita pinga na cabeça) a me ajudar. Poderíamos seguir em frente ou voltar. Se voltássemos, andaríamos uns 10 km e chegaríamos a uma estrada de asfalto. Imaginando que São Thomé das Letras está a Leste, essa estrada de asfalto seguiria em direção a Oeste, daríamos uma baita volta para chegar onde queríamos chegar. Podíamos então seguir em frente, seriam mais uns 30km de estrada de terra, seguindo em direção ao Norte, e chegaríamos no asfalto, já em Minas Gerais. Resolvemos encarar esses 30km, e ouvi do dono do bar: “isso aí, o que é um peido pra quem já está cagado né?”. Realmente, pra quem já estava perdido e andando sem rumo na terra, mais 30k não era nada.

Continuamos, um olho na estrada e outro no hodômetro da moto, contando km por km até o 30. Nem acreditei quando vimos a estrada! Mais uma vez era fim da linha, mas dessa vez acabava a terra e começava o asfalto, uma placa grande indicava para a esquerda ou para a direita e lá estava “São Thomé das Letras”. Um high five, respira fundo e toca na estrada, aproveitamos o asfalto e a lua cheia clareando o caminho para acelerar a viagem. Já era quase 21h, tínhamos saído não muito depois das 17h, isso que dá querer se aventurar por onde não conhece, com “hora marcada”.

Rodamos mais uns 50km e cruzamos um cidadezinha charmosa, bem cara de interior, com o povo sentado nos bancos da praça da igreja batendo papo. Como uma miragem no deserto, vimos uma pizzaria e paramos na hora. Duas motos BMW, grandes e barulhentas, naquela pequena cidade, dá pra imaginar o “acontecimento” que foi quando estacionamos, né?

Comemos, conversamos sobre a aventura que tínhamos acabado de viver e, apesar do sufoco, só pensávamos: “temos que voltar de dia, era lindo demais, a estrada é boa e a paisagem parece incrível”.

De barriga cheia, e agora com o tanque da moto cheio, seguimos pilotando noite a fora. O sinal do gps não demorou para voltar e logo estávamos novamente no nosso caminho.

Chegamos a Cruzília, me lembro de ver essa cidade no mapa antes de sairmos do Rio. Respirei aliviado concluindo que estávamos chegando, eu mal sabia o que nos esperava logo adiante.

Vira para a esquerda, vira para a direita, já passará de 22h e a cidade dormia enquanto dois doidos cruzavam as ruas de paralelepípedo fazendo barulho com suas motos. Pilotamos por uma rua larga, em subida, e quando chegamos no ponto mais alto da rua… Acabou o asfalto! Parecia um deja vu… “Mais terra?! Nããão”

Paramos as motos uma ao lado da outra e olhamos um para o outro:

“Será que é aqui?!” .. “O meu gps diz que é” .. “O meu também” .. “Caramba… Quantos km será que temos de terra?” … Silêncio …

Só depois desse diálogo que paramos para olhar para frente com calma, foi aí que vimos que tinha um chevette velho estacionado com a janela aberta. O farol das motos iluminava pelo vidro traseiro e víamos que tinha um cara dentro. Meu amigo começou a falar “Oi! Tem alguém aí?!” para pedir informação, mas o cara não respondia. Eu dei um toque na buzina e pisquei o farol alto da moto. Se quem não deve não teme, naquele dia concluí que, da mesma forma, quem deve – teme. O cara dentro do carro colocou os braços para cima pela janela do carro, como se fôssemos policiais e ele estivesse sendo abordado.

Não segurei a risada e falei: “calma amigo, só queremos uma informação “. O cara deve ter respirado aliviado e abriu a porta do carro, desceu com um cigarro suspeito na mão e conversou com a gente. Ele lá e a gente aqui:

“São Thomé é pra cá?” .. “É sim! 20km daqui” .. “Mas é terra até lá??” .. “É sim!” .. “Mas é tranquilo??” .. “É sim, não tem erro! Eu estou indo para lá” .. “Maravilha, podemos te seguir??” .. “Pode sim, meu amigo está chegando aí e a gente já vai”

O amigo dele chegou em um fusca, tocamos em direção a São Thomé, os dois acelerando e a gente tentando seguir, mas não teve jeito de acompanhar, era muita poeira, não conseguíamos enxergar nada, além disso, o chão estava escorregadio e tínhamos que ir devagar ou tomaríamos um tombo, compraríamos um terreno, como se diz no mundo das motos.

Poucos minutos depois lá estávamos nós novamente, no meio do nada, em uma estrada de terra, com a lua cheia iluminando.

Pelo menos dessa vez sabíamos que estávamos quase chegando. Seguimos no nosso ritmo, já pensando no chuveiro quente e na cama. Cruzamos por um carro vindo no sentido oposto ao que estávamos seguindo, desligamos as motos e, usando meu espírito de policial que ficou aguçado graças ao cara do chevette, fiz sinal de parar para o carro que vinha. Outro carro velho, com 4 caras dentro, uma situação daquelas que se acontecesse em uma rua escura de São Paulo ou do Rio eu pensaria “ok, leva o celular, leva a carteira, mas me deixa vivo”.

Aquele cheiro de fumo saindo do carro…

“São Thomé é pra cá??” .. “É sim.. Não é não.. Claro que é cabeção.. Uai, pode ser, mas por lá também chega!”

Não acredito.. Parecia a cena do bar, mas agora era um carro.. Os caras chapados estavam dispostos a ajudar, desligaram o carro e desceram, aquela sensação de “ferrou vou voltar pra casa a pé” bateu de novo, mas eles foram para a frente do carro, sentaram no capô e conversamos por uns 5 minutos. O fato é que poderíamos seguir em frente ou voltar algumas centenas de metros e virar em uma curva que havíamos ignorado tentando acelerar para alcançar o chevette e o fusca de Cruzília. Esses dois caminhos eram como uma curva e levariam ao mesmo lugar, a tão desejada São Thomé das Letras.

Nos despedimos e seguimos em frente. Alguns km a frente nos deparamos com uma curva bem fechada, em forte declive e com pedrinhas soltas, o pavor de todos que andam de moto. Passamos bem devagar, parecia que estávamos caminhando, e não em uma moto. Escorrega daqui, escorrega dali, passamos! Foi para fechar com chave de ouro. Alguns km a frente um portal de madeira meio velho indicava São Thomé das Letras. Chegamos!

Mas a entrada da cidade era afastada do centro, e só tinham umas placas com nome de pousada, nada de “centro histórico”. Pra variar, sem gps e sem sinal de celular, foi na base do “unidunite o escolhido foi você”, seguimos por uma rua de pedras que parecia ter alguma civilização, não demorou muito e estávamos em uma pracinha. Meia dúzia de casais com casacos de couro e botas ocupavam as mesas de um barzinho com o som alto tocando reggae. Alguns metros adiante vimos na parede de um casarão: “pousada”.

“Fica aqui com as motos que vou na recepção ver se tem quarto” disse meu amigo.

“Tem quarto” .. “Quanto?” .. “50 reais” .. “Quarto single ou duplo?” .. “Tanto faz, é 50 por cabeça”

Eu ri sozinho dentro do capacete. Nunca dormi em uma pousada por R$50, imaginei que seria horrível, mas tudo bem, tudo que eu queria era chuveiro e cama.

“Tem garagem??” .. “Tem!” .. “Então bora”, eu falei..

Estacionamos, entramos, banho e cama. Depois dessa aventura na noite mineira, por caminhos alternativos e com a lua nos iluminando, o sono dos justos nunca foi tão bem aproveitado quanto naquela noite.

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