Atolado com os Demônios do Deserto

“Esse foi o meu primeiro tour como guia de expedições de moto. O trajeto seria Rio de Janeiro/Brasil – Lima/Peru, 42 dias de viagem. Uma verdadeira aventura da qual nunca me esquecerei.”

Ao chegar em Purmamarca/Argentina, nosso próxima dia de viagem seria cruzando o Paso Jama em direção ao Deserto do Atacama, contudo, devido ao mau tempo e muita neve na estrada, estava fechado. Decidi ignorar o cronograma e modificar o roteiro, seguiríamos em direção ao Norte, para a fronteira Argentina/Bolívia, e de lá cruzaríamos para o Salar de Uyuni, dessa forma estaríamos novamente dentro do cronograma.

grupo

Para que tivéssemos um dia bacana, já que estávamos deixando de pilotar pelo Paso Jama, ao seguir para o Norte optei por fazer um desvio da rodovia, liderando o grupo por uma estrada que nos levaria a uma laguna de flamingos. O lugar era fantástico, a natureza e as cores se encaixavam perfeitamente e nos davam a impressão de estarmos em um cenário de filme.

Todos adoraram, mas esse desvio nos fez gastar algumas horas além do esperado. Somado a isso, tivemos dificuldades para cruzar a fronteira na Bolívia, o que nos deixou ainda mais atrasados. Chegamos em Tupiza/Bolívia já era noite. Após tomar um banho e jantar, era tarde e todos estavam cansados. Conversamos sobre o roteiro do dia seguinte e, como seriam apenas 300km de Tupiza para o Salar de Uyuni, pensei que teríamos um dia tranquilo, por isso concordei com o restante do grupo em dormirmos até mais tarde e sairmos às 11am.

Eu me arrependeria dessa decisão no próximo dia…

O trajeto entre Tupiza e o Salar de Uyuni é fantástico, porém demorado. Trata-se de uma área por onde passa o Rally Dakar, com muitos buracos, pedras, areia e poeira. Uma viagem divertida, mas muito técnica, o que, novamente, nos atrasou. Chegamos na Vila de Atocha/Bolívia já no meio da tarde. Por lá encontramos diversos carros 4×4 parados dizendo que era impossível seguir viagem pois mais a frente uma tempestade de areia havia bloqueado a estrada e ninguém estava passando. A Vila de Atocha estava exatamente na metade do caminho entre Tupiza e o Salar de Uyuni, eu tinha duas opções: voltar ou seguir viagem.

grupo2

Preocupado mais com o nosso carro de apoio e trailer do que com as motos, modelos BMW preparados para off road, decidi que seguiríamos viagem. Logo ao sair da Vila de Atocha começamos a sentir a força dos ventos e a areia aos poucos tomando a pista. Alguns quilômetros a frente nos deparamos com um ônibus abandonado, atolado na areia de uma grande duna que se formou sobre a estrada. Éramos eu e minha moto com mais 10 clientes em suas motos (3 deles com suas esposas na garupa). Depois de um rápido briefing com sugestões e críticas, alguns clientes queriam voltar para Tupiza, onde dormimos na última noite. Fui contra e, como Tour Leader, decidi que seguiríamos viagem e iriamos encarar aquela duna de areia, afinal a distância para voltar seria a mesma até o nosso destino do dia. As motos conseguiriam passar de um jeito ou de outro, e quanto ao carro de apoio, com comida e água, eu tinha certeza que não seria um caso de vida ou morte para o meu parceiro guia dormir uma noite no deserto e, no dia seguinte, encontrar um caminho para passar com o carro.

Nota: Toda essa história se passou a mais de 3.000 metros de altitude, onde o ar é rarefeito e circula menos oxigênio.

Para encorajar o restante do grupo, acelerei a minha moto e fui o primeiro a atravessar a duna. Dois clientes também conseguiram, mas o restante atolou na areia. Passamos então a atravessar uma moto de cada vez.

Conseguimos atravessar a duna com todas as motos, sem saber se haveriam mais a frente, e começamos a estudar por onde o carro de apoio com o trailer poderia passar. Certamente não seria pela duna, talvez pelo rio seco que passava ao lado da estrada, mas também estava coberto por poeira e areia.

Passaram-se alguns minutos e nada do carro aparecer. Fiquei preocupado e resolvi pegar uma moto para atravessar a duna de volta e ajudar o meu parceiro. Na pressa, ao invés de pegar a minha moto, peguei a de um dos clientes. Assim que atravessei a duna, a moto desligou e não ligava mais. Um problema com a peça onde ligava a chave, não havia nada que eu pudesse fazer, a moto não iria a lugar nenhum. Mais uma vez atravessei a duna, dessa vez correndo, em direção ao restante do grupo. Coloquei o cliente mais experiente para liderá-los e disse para que eles seguissem viagem em direção ao Salar de Uyuni, aproveitando a luz do dia. Não tinha como errar o caminho, era uma única estrada, praticamente em linha reta, e, se houvessem outras dunas, eles poderiam se ajudar. Peguei a minha moto, agora levando na garupa o cliente que estava pilotando a moto que quebrou, e atravessei a duna pela 4ª vez em direção ao carro de apoio com o trailer.

trailer com moto.jpg

Quando encontramos o carro, não acreditei no que estava vendo, o pneu estava furado. Aquele já era o estepe, ou seja, não tínhamos outro pneu para o carro. Tiramos o pneu furado do carro, deixei o cliente da moto quebrada dentro do carro, e segui de moto com meu parceiro até a Vila de Atocha para tentarmos dar um jeito no furo. Deixei-o na Vila e, antes de partir, pedi a ele que pegasse a moto quebrada que ficou parada na duna e que levasse o cliente da moto quebrada junto com ele no carro.

Confiando que meu parceiro conseguiria resolver todos os problemas, acelerei pela estrada em direção ao Salar de Uyuni mas, antes de alcançar o ponto onde havíamos parado, começou a escurecer. Sem conseguir enxergar muito bem, acelerei minha moto e passei flutuando pela areia fofa da duna. 2 quilômetros a frente me deparei com uma outra duna, ainda maior do que a primeira. Os clientes devem ter atravessado essa segunda duna ajudando um ao outro. Acelerei ainda mais a minha moto e comecei a flutuar sobre a areia, estava indo muito bem mas, logo após atravessar metade da duna, a minha moto atolou. No meio do deserto, tudo escuro, frio e a mais de 3.000 metros de altitude, tentei tirar a roda traseira da areia, mas o esforço foi em vão. Fiquei cansado. Tudo estava muito difícil. Deitei na areia ao lado da moto e respirei fundo, não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. Como eu vim parar aqui? De repente, a lua cheia apareceu e iluminou o deserto. Ganhei forças e consegui tirar a moto da areia. Não sei como, mas consegui atravessar a segunda duna. Com o céu estrelado e a lua clareando o meu caminho, eu acelerava a mais de 100km/h em uma estrada onde, durante o dia, eu não pilotaria a mais do que 60km/h.

noite.jpg

Após alguns minutos rodando pelo deserto, comecei a ver luzes vermelhas no horizonte, só podia ser as luzes de freio das motos do grupo. Ao me aproximar, percebi que estavam parados estudando uma forma de atravessar um trecho de lama. Não parei. Acelerei e passei sobre a lama, encorajando-os a fazer o mesmo. Após todos passarem, a moto de um dos clientes parou de funcionar, um fio da bateria havia se rompido. De noite e com a adrenalina alta, foi um desafio remendá-lo com minhas próprias mãos, já que todas as ferramentas estavam no trailer que ficou parado na primeira duna com o carro de apoio.

Problema resolvido, fizemos um novo briefing para acalmar os ânimos, todos assustados e cansados. Eu disse que seguiríamos com calma, sem pressa, pois já estava escuro e não havia nada que pudéssemos fazer além de completar os 40 quilômetros restantes.

luzes

Chegamos em nosso hotel por volta de 1am. Comemos pizza e todos foram dormir. Sem notícias do meu parceiro e do cliente da moto quebrada, fiquei na recepção do hotel aguardando pelo carro de apoio com o trailer.

O carro só aparecer por volta de 5am. Mesmo sem sinal do trailer e da moto, respirei aliviado sabendo que meus amigos estavam bem. Depois de uma curta noite de sono, eu e meu parceiro tivemos que dirigir todo o caminho de volta para resgatar a moto quebrada e o trailer abandonado. Não preciso nem dizer que foi outro longo dia, mas essa história, bem como a noite no deserto e seus demônios, são assunto para uma próxima história.

daniel
@DannyExpeditions – Gerente de Expedições
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